"Mãezinha, pode entrar." Na recepção da clínica, no portão da escola e no grupo de mensagens da turma, é assim que chamam você. Com o tempo, o apelido para de incomodar, porque descreve bem a sua vida: você leva, busca, explica e preenche ficha. Até que, numa pausa rara, aparece uma pergunta que não estava na lista do dia. Quem sou eu, além disso?

Este texto é para a mãe atípica que sente que foi encolhendo por dentro enquanto a rotina de cuidado crescia por fora. Também serve para o pai que se reconhece nisso. Não há aqui receita para "se reencontrar" em sete passos. O que existe é uma tentativa de dar nome ao que acontece e de mostrar que sentir falta de si não é defeito de caráter.

O que é a perda de identidade na mãe atípica

A perda de identidade na mãe atípica é a sensação de que a vida passou a caber inteira no papel de cuidadora. Gostos, projetos, amizades, trabalho e até o jeito de falar de si vão sendo trocados pela agenda do filho. O incômodo que isso causa não é falta de amor nem egoísmo. Ele indica que uma parte importante de você ficou sem lugar.

Muitas mães descrevem isso com palavras parecidas: "eu sumi". Não foi de uma vez. Foi aos poucos, como uma foto que desbota no sol. Ninguém decidiu que seria assim. Aconteceu porque havia urgências, e as urgências sempre passam na frente.

Como o cuidado vai ocupando todos os cômodos

No começo, a mudança parece provisória. Você deixa o curso para depois do diagnóstico, troca o emprego por algo mais flexível, recusa o aniversário da amiga porque a semana foi pesada. Cada escolha, sozinha, faz sentido. Somadas, formam uma vida em que nada escapa de terapia, consulta, escola, remédio ou crise.

Repare também na linguagem. Quando alguém pergunta como você está, a resposta costuma falar do filho: "ele está melhor na escola", "começou com uma fono nova". A resposta é sincera e também revela muita coisa. Às vezes a gente responde pelo outro porque já não sabe responder por si.

E há o conhecimento que você acumulou. Você aprendeu termos técnicos, nomes de exames, rotinas e caminhos de atendimento. Isso tem valor e merece reconhecimento. Mas, quando toda a sua inteligência e toda a sua energia vão para um único lugar, o resto da casa interna fica no escuro.

A persona da mãe que dá conta

Jung chamou de persona a face que mostramos ao mundo, o papel social que nos permite circular, ser reconhecidas e cumprir funções. A persona não é falsa nem ruim. Sem ela, ninguém conseguiria trabalhar, negociar com a escola ou se sentar diante de um médico. O problema começa quando a pessoa se confunde com o papel e passa a acreditar que é só aquilo.

Para muitas mães atípicas, a persona tem um formato conhecido: a mulher forte, organizada, informada, que não chora na frente de ninguém. Quanto mais o mundo elogia essa imagem, mais difícil fica tirá-la. E isso não tem nada a ver com ser "mãe guerreira". Esse rótulo costuma servir mais a quem olha de fora do que a quem vive a situação: ele aplaude a resistência e dispensa a pergunta sobre o preço dela.

Na escuta, eu percebo com frequência que uma pergunta simples sobre como a mulher está desmonta mais do que qualquer conselho. Às vezes a resposta demora, porque a persona tem frase pronta para tudo, menos para isso.

O que ficou guardado na sombra

Na Psicologia Analítica, sombra é aquilo que a consciência deixou de fora: aspectos que não cabiam na imagem que fazemos de nós, desejos que pareceram inadequados, partes que precisaram ser guardadas para a vida seguir. A sombra não reúne só o que temos de "ruim". Muitas vezes, guarda capacidades, alegrias e vontades que ficaram sem espaço.

Na mãe atípica, a sombra pode guardar a mulher que dançava, que estudava, que tinha opinião sobre tudo, que gostava de ficar à toa num domingo. Pode guardar também a vontade de ter uma parte da vida que não gire em torno do filho, junto com a vergonha de admitir essa vontade. O que fica empurrado para baixo por muito tempo costuma voltar por outros caminhos: uma irritação sem motivo claro, inveja da amiga que viaja, um choro que aparece do nada no banho.

Sentir falta de quem você era não quer dizer que você queria outro filho. Quer dizer que você continua sendo alguém. Dá para amar profundamente o seu filho e, ao mesmo tempo, sentir saudade de si.

Pequenos fios de volta para si

Ninguém recupera a própria história com uma grande decisão num dia de folga que não existe. O caminho costuma ser feito de fios finos, puxados com paciência. Seguem algumas possibilidades, sem obrigação nenhuma:

  • Escrever numa folha três coisas que você gostava de fazer antes e que não têm relação com o cuidado. Só lembrar já é um movimento.
  • Reservar um tempo curto, mesmo que de quinze minutos, que seja seu e não sirva para resolver pendências.
  • Responder à pergunta "como você está?" falando de você, pelo menos uma vez por semana, com alguém de confiança.
  • Prestar atenção nos sonhos e nas imagens que surgem quando você se distrai. Às vezes eles mostram o que a rotina não deixa dizer.
  • Retomar uma amizade antiga sem precisar explicar tudo o que aconteceu desde a última conversa.

Se nada disso parece possível agora, tudo bem. Às vezes o primeiro fio é só admitir que você sente falta.

Individuação: não voltar, mas tornar-se

A ideia de "me reencontrar" tem uma armadilha: supõe que existe uma versão antiga e intacta de você esperando em algum lugar. A vida mudou, e você também. A Psicologia Analítica fala em individuação, o processo de se tornar, ao longo da vida, a pessoa inteira que se é, levando para a consciência o que estava disperso ou escondido. Individuação não é voltar ao passado nem virar outra pessoa. É ir ficando mais inteira.

Nesse sentido, a experiência do cuidado não precisa ser apagada para que você exista. Ela faz parte de você e só deixa de ser a única parte. A mãe atenta pode conviver com a mulher que tem planos, com a amiga, com a estudante, com alguém que precisa de silêncio. Cada uma dessas partes pode ter seu espaço, sem que uma precise expulsar a outra.

Esse processo não tem prazo nem roteiro. Cada pessoa encontra os próprios símbolos e os próprios caminhos. Um acompanhamento pode oferecer um lugar para olhar para isso com calma, sem a cobrança de resolver alguma coisa logo no primeiro encontro.

Quando o vazio pesa demais

Às vezes a sensação de ter desaparecido vem junto com outras coisas: um vazio que não passa, um desânimo que dura semanas, a ideia de que nada faz sentido ou de que seria melhor que tudo acabasse. Isso não é fraqueza e não é para carregar em silêncio. Se você está em sofrimento intenso ou pensa em tirar a própria vida, ligue agora para o CVV, no 188, que atende de graça e 24 horas, ou procure o pronto atendimento mais próximo.

O acompanhamento de autoconhecimento que eu ofereço não é atendimento de urgência e não substitui o cuidado de psicólogo, psiquiatra ou médico. Ele pode andar junto com esses cuidados, mas nunca no lugar deles.

Um lugar para você em Osasco e online

Se este texto tocou em algo, talvez valha começar por um encontro curto. Sou estudante de Psicologia Analítica Junguiana e de Filosofia e atendo no contexto autorizado da formação, com supervisão. A sessão de acolhimento dura de 15 a 30 minutos e não tem custo. Nela você conta o momento que está vivendo e percebe se esse tipo de escuta faz sentido para você.

Se você não tem com quem deixar o seu filho, o encontro pode ser por vídeo, de qualquer cidade do Brasil. Se prefere vir pessoalmente, o atendimento presencial é no Espaço Multiverso Kuiantan, na R. Atílio Delanina, 321, Vila Campesina, Osasco (SP), CEP 06023-070. Os horários vão de segunda a sexta, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 13h. O agendamento é feito pelo WhatsApp (11) 98770-8132.

Você não precisa saber quem é agora para começar. Basta ter vontade de olhar para isso.