Culpa e raiva na mãe atípica são humanas e bem mais comuns do que se conta. Sentir não faz de ninguém uma mãe ruim: o cuidado se mede pelo que a gente faz, e não por cada pensamento que passa. O que adoece é guardar tudo isso sozinha, em silêncio. Se algum pensamento vier com risco para você ou para a criança, peça ajuda agora, como explico mais abaixo.
Este texto é sobre o que costuma ficar entalado: a raiva do filho, a raiva de tudo, a culpa por descansar, o pensamento que dá vergonha até de escrever. Se você está lendo de madrugada, no escuro, com a tela no mínimo para não acordar ninguém, leia no seu ritmo. Pode parar quando precisar.
A culpa da mãe atípica: por descansar e por sentir
Existem duas culpas, e a segunda é a que mais pesa. A primeira é a culpa de parar. Cada hora que você descansa vira, na sua conta, uma hora em que o seu filho ficou sem. É uma balança que ninguém pediu, mas que você carrega, e na qual o seu lado nunca pesa. Quando o cansaço é o que mais aperta, o texto sobre mãe atípica cansada conversa sobre isso com mais calma.
A segunda é a culpa por ter sentido. Você já estava cansada e agora se acusa de estar cansada. Já estava brava e agora se acusa de estar brava. A culpa vira uma camada sobre a outra, e o resultado é que a mãe passa a esconder o que sente de todo mundo: da amiga, do parceiro, da equipe que acompanha o filho. E o que se esconde não desaparece. Só fica sem lugar.
Um exemplo comum: numa noite sem sono, você levanta a voz com a criança, ela chora, você abraça, pede desculpa e passa o resto da madrugada se punindo. Pedir desculpa e reparar é um gesto de cuidado. Passar a madrugada se punindo é só mais uma noite sem dormir.
Raiva: de quem, afinal?
A raiva da mãe atípica raramente tem um endereço só. Ela costuma se espalhar:
- Do filho. Do sono que ele não tem, do prato que ele empurra, da crise na hora errada, do olhar dos outros por causa dele. Muitas vezes não é raiva dele, e sim do que a situação exige de você, que acaba caindo sobre a criança porque é quem está mais perto. E às vezes é raiva dele mesmo, naquele minuto, como acontece com qualquer mãe e qualquer filho. Raiva e amor moram juntos em toda relação próxima.
- Da situação. Da vida que chegou no lugar da vida que você tinha imaginado, dos planos que viraram outros, do filho do vizinho que faz sem esforço o que o seu leva anos para fazer. É o território do luto, que quase ninguém chama de luto, e que a matéria sobre o luto do filho idealizado explora melhor.
- Do parceiro e de quem “ajuda”. De quem sai para trabalhar e volta, de quem consegue se desligar, da mãe ou da sogra que opina sem pegar a criança no colo. Se você é pai, nada disso é exclusivo das mulheres: muitos pais sentem a mesma raiva e a mesma culpa, e falam ainda menos sobre isso.
- Dos profissionais. De quem fala de metas e de resultados, de quem pergunta se a tarefa de casa foi feita, de quem lembra tudo o que ainda falta e quase nunca pergunta como você está.
- De Deus, da vida, do destino. O “por que comigo, por que com ele?” que quem tem fé costuma sentir com culpa em dobro, como se fé e raiva não coubessem na mesma pessoa. Cabem.
Eu costumo dizer que a raiva é uma mensageira: ela avisa que alguma coisa passou do limite. O erro é tentar calá-la, em vez de ouvir a mensagem.
Os pensamentos que dão vergonha de admitir
Existem pensamentos que a mãe não conta nem para a amiga mais próxima. “Queria sumir por uma semana.” “Eu não me reconheço mais.” “Tem dia que eu queria que tudo isso acabasse.”
O último é o mais difícil de admitir, porque pode ter muitos significados. Na maioria das vezes ele quer dizer: queria que a exaustão acabasse, que a sobrecarga acabasse, que o medo acabasse. É um pedido de fim da dor, e não de fim de alguém. Mas há momentos em que o pensamento muda de direção e passa a falar da própria vida, ou da vida da criança. Aí ele deixa de ser um assunto para guardar e passa a ser um assunto para levar a alguém agora.
Ter esse tipo de pensamento não é defeito de caráter. Acontece com gente que cuida há muito tempo, dorme pouco e não tem onde pousar. Mas é um sinal que pede cuidado, e não silêncio. Mais adiante está o que fazer se ele aparecer.
A sombra: aquilo que a gente não admite sentir
Na Psicologia Analítica, criada por Carl Gustav Jung, a sombra é o conjunto do que a gente não admite sobre si: sentimentos, impulsos e desejos que não combinam com a imagem que construímos. Ela convive com a persona, a máscara social. Quanto mais firme a máscara da mãe dedicada, paciente e incansável, mais escura costuma ser a sombra. Raiva, ressentimento, cansaço e vontade de fugir ficam do lado de lá, porque “uma boa mãe não sente isso”.
A observação central é que aquilo que não ganha espaço não desaparece. Vai para a sombra e de lá volta por outros caminhos: uma irritação desproporcional por causa de um copo quebrado, um choro sem motivo, um corpo que dói sem explicação, uma explosão que dá vergonha depois, ou uma frieza que você mesma estranha. A sombra não é o seu lado mau. É o seu lado não visto. Olhar para ele, com escuta e sem pressa, pode tirar parte do peso do que parecia ameaça.
A saída também não é escolher entre a mãe amorosa e a mãe com raiva. A Psicologia Analítica fala em função transcendente: a capacidade de sustentar dois lados em tensão, sem eliminar nenhum, até que apareça uma terceira posição. Aqui, uma mãe que ama e se irrita, que cuida e se esgota, que quer o bem do filho e às vezes quer só um minuto de silêncio. Não é uma coisa ou outra. São as duas.
Sentir é uma coisa, agir é outra
Essa distinção protege todo mundo. Sentir raiva, vontade de gritar, de sumir, de largar tudo é uma experiência interna, e sentir não machuca ninguém. Agir é outra categoria: gritar de um jeito que assusta, sacudir, deixar de cuidar, ferir. Entre o sentimento e o ato existe um espaço, e é nele que a gente trabalha.
Quando a raiva sobe, algumas coisas ajudam a ampliar esse espaço, desde que a criança esteja em segurança:
- sair do cômodo por alguns minutos, ou passar a criança para outro adulto;
- lavar o rosto com água fria, respirar devagar, apoiar bem os pés no chão;
- dizer em voz alta o que está sentindo (“eu estou no meu limite”), mesmo que seja para o vazio;
- ligar ou mandar mensagem para uma pessoa de confiança, sem se preocupar em explicar tudo;
- depois, se houve um grito ou uma palavra dura, voltar, abraçar e reparar, sem se castigar.
Agora, se você percebe que esse espaço está encurtando, que a raiva vem com impulso de machucar ou que você tem medo do que pode fazer, isso não é para aguentar sozinha. Isso é urgência.
Dar um lugar ao que você sente, no dia a dia
Nem tudo é urgência. Boa parte do que a mãe atípica carrega pede apenas um lugar onde possa ser dito. Alguns caminhos pequenos:
- Dizer a uma pessoa só. Uma amiga que não se assusta, uma irmã, o parceiro, alguém de um grupo de mães que também vive isso. Uma pessoa já basta para o segredo deixar de ser segredo.
- Escrever e não enviar. Uma carta para a raiva, para o cansaço, para a vida que você planejou. Escrever tudo, do jeito mais cru, e depois rasgar ou guardar. O papel aguenta o que a boca ainda não aguenta.
- Trocar o veredito pela frase. “Sou uma péssima mãe” é uma sentença. “Estou com raiva e cansada hoje” é uma frase sobre o dia. A primeira fecha a conversa, a segunda abre.
- Lembrar o que a culpa mede. Quem não se importa dificilmente sente culpa. Ela costuma ser, em parte, o tamanho do cuidado, só que virado contra você mesma.
Nada disso substitui uma escuta de verdade, mas já tira o assunto do escuro.
Quando é urgência: o que fazer agora
Algumas situações não esperam. Procure ajuda imediata se:
- você está pensando em tirar a própria vida;
- você tem medo de machucar o seu filho, ou chegou a machucar;
- sente que perdeu o controle, ou que não consegue mais ficar a sós com ele sem medo de si;
- está há dias sem dormir e os pensamentos estão cada vez mais escuros.
Se você está em sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, ligue 188 (CVV, atende de graça, 24 horas) ou procure o pronto atendimento mais próximo. Se há perigo imediato para você ou para a criança, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto atendimento agora, e peça a alguém de confiança que fique com vocês.
Pedir ajuda nesse momento não é admitir que fracassou. É a atitude mais responsável que existe, e ela protege o seu filho também. Quando o pior tiver passado, procure um médico ou um psicólogo para conversar sobre o que aconteceu, com alguém habilitado a avaliar.
Um lugar para dizer isso em voz alta, em Osasco ou online
Se você quer colocar isso em palavras com alguém que não vai se assustar nem julgar, a Rafaela Cruz recebe mães e pais atípicos de duas formas. Online, por vídeo, do quarto, da sala com a criança na escola, do lugar onde você conseguir ficar sozinha por um tempo. Ou presencialmente, no Espaço Multiverso Kuiantan, em Osasco: R. Atílio Delanina, 321 (CEP 06023-070), no bairro da Vila Campesina. O endereço serve a quem mora em Osasco e nas cidades vizinhas da Grande São Paulo, como Carapicuíba e Barueri, e também a quem vem da zona oeste da capital.
A agenda abre cedo e fecha tarde: das 8h às 20h durante a semana, e até as 13h aos sábados. Antes de qualquer decisão existe a sessão de acolhimento, um primeiro encontro de 15 a 30 minutos que não tem custo e não cria compromisso. Nela você diz o que quiser, no seu ritmo, e vai sentindo se esse jeito de caminhar faz sentido. Não precisa chegar com a história arrumada. O agendamento é pelo WhatsApp, (11) 98770-8132.
Um aviso importante sobre o que este espaço é e o que não é: a Rafaela está se formando em Psicologia Analítica Junguiana e atende sob supervisão, no contexto que a própria formação autoriza. O acompanhamento é um processo de autoconhecimento, não funciona como atendimento de urgência e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Em crise, o caminho é o 188 ou o pronto atendimento, como descrito acima.